sexta-feira, 6 de junho de 2008

POLVO AUMENTA 640% DA LOTA AO RESTAURANTE

Preço do polvo varia mais de sete vezes no mesmo percurso. Entre o valor que é pago na lota e o prato do restaurante, a sardinha aumentam de preço mais de 17 vezes. E se da lota à peixaria um pargo só encarece 12%, já quando chega ao hipermercado já subiu 58%. À mesa do restaurante são 198% a mais do que na primeira venda. Pescada 12 vezes mais cara do que o que é pago ao pescador é outro exemplo. E por aí adiante.

Desde que é capturado até às mesas de cada um, o peixe anda de banca em banca fazendo um percurso que à partida parece simples, mas que acaba por sair caro aos bolsos do consumidor. Um quilo de robalos, por exemplo, pode custar cerca de 13 euros na lota e o preço a pagar por apenas um peixe num restaurante subir até aos 40 euros. Os preços variam de zona para zona, dependendo do afastamento em relação à costa, da origem do pescado ou da qualidade dos restaurantes. Apenas uma certeza permanece inalterada: há um caminho a pagar... aos intermediários.

Portugal é o terceiro maior consumidor de peixe do mundo, ficando apenas atrás do Japão e da Islândia. Por ano, cada português consome em média 59 kg de peixe, face a uma média europeia que ronda os 20 kg por pessoa. Os últimos dados apontam para uma descarga de cerca de 168 mil toneladas por ano nos portos nacionais. A pesca nacional destina-se não só à alimentação como também à exportação. Porém, os valores de consumo dos portugueses são elevados, implicando por isso uma grande quota de importação - cerca de dois terços do peixe consumido, o que acaba por encarecer o preço de venda.

Nestes dias de paralisação é provável que a quota tenha sido maior. Ontem foi o primeiro dia de peixe fresco de origem nacional desde sábado passado.A hora de saída dos pescadores para o mar é variável. Depende da técnica que utilizam, da espécie que capturam e do estado do mar, ventos e marés. Por isso, o desembarque na lota é feito de acordo com os intervalos de tempo em que as embarcações saem para o mar e regressam carregadas.

Suponhamos a pesca do polvo, feita segundo a arte das redes fixas. O barco sai na maioria das vezes durante a noite - os polvos fogem quando vêm a luz do dia - para descarregar os alcatruzes e volta para a trazer o molusco para o cais. Cada embarcação traz as suas próprias caixas, onde deposita o resultado da sua pesca e que são em seguida arrumadas na lota. Uma, duas ou três vezes por dia, a horas fixas, é feita a chamada 'primeira venda', na lota do peixe fresco. O polvo, nas caixas, passa pelo tapete rolante, pára na balança automática, onde são inseridos os seus dados num painel electrónico, e colocado à vista dos compradores. Inicia-se a venda. Os preços são apresentados no painel, em contagem decrescente, até alguém interromper a contagem, para comprar o peixe. A venda do polvo começa normalmente nos seis euros o quilo e é comprado a uma média de 4,05 euros. Na bancada estão compradores para mercados locais, para o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), restaurantes, certos compradores internacionais e fornecedores de grandes superfícies e hotéis.

O necessário para fazer parte da bancada de compra é ser empresário em nome individual e ter uma autorização paga na lota.Depois de transportado para os diversos destinos, o peixe começa a aumentar o preço. Nos mercados iremos encontrar, por exemplo, o quilo de polvo a uma média de oito euros. Há também uma grande percentagem de peixe que segue para conservação, nomeadamente através do gelo, sendo depois vendido, por norma, em postas. Grande parte do abastecimento de peixe que encontramos nestas superfícies, nalgumas peixarias e mercados locais é feito no MARL. Por isso é comum que ao comprar polvo nos hipermercados se encontre os preços a nove ou dez euros. No MARL, a maioria do peixe comercializado é proveniente de Portugal. Porém, há também pescado com origem em Espanha, no Norte e na Costa Ocidental de África, na América Central e do Sul. A verdade é que em nenhum mercado as tabelas de preço são fixas, vigora sempre a lei da oferta e da procura, E o MARL não é excepção, cada entidade presente comercializa o peixe ao preço desejado.Feitas as contas e analisados os trajectos, sabemos que para trás ficaram ganhos para os pescadores, os mercadores e a própria superfície comercial.

No caso do polvo, em termos de preço médio, por uma dose de cerca de 250g paga-se 7,50 euros, o que representa uma variação de 640% face à lota.
in Diário de Notícias On-line, 06/06/08

BANDEIRAS DESFRALDADAS

De à uns meses a esta parte, continua a fase de pré-campanha eleitoral, potenciada aqui e ali sempre que surge uma manifestação pública, seja de que carácter for, sendo de imediato o palco aproveitado para ataques e contra-ataques. Aliás, o meu artigo anterior referi já dois exemplos dessas situações.

Pelo que vejo, este clima tenderá a crescer exponencialmente, porque observo que nenhuma das partes parece interessada em conter-se no aproveitamento desses e outros palcos. E "como quem não se sente não é filho de boa gente", leva de aproveitar o próximo evento para enviar, a duplicar, a provocação no anterior, feita pelo outro.

Queixa-se agora o PS, que na "festa" que abordei no artigo anterior, a bandeira do município não estava no porta bandeiras, onde estavam por sinal, fazendo fé nos que se queixam, as bandeiras dos municípios espanhóis. Manda o respeito institucional que se condene o acto, porque na verdade, deveria figurar igualmente a do nosso município, porque se mais razões não houvesse (e há), é o executivo que tutela a toponímia do Concelho.

Obviamente não conheço os motivos, mas talvez no passado e ao contrário também não tenham havido outras "bandeiras desfraldadas", sendo que, pelo andar da carrugem e no futuro, outras irão ficar por desfraldar.

É neste adro que a procissão vai.

PS E VÍTOR DA GUIA - De novo de candeeias às avessas

Chovem por aí picardias em torno do último evento promovido em Azinhaga, pela sua Junta de Freguesia, onde ocorreram a inauguração do pólo José Saramago, a consagração da sua esposa Pilar del Rio como filha de Azinhaga e agora "detentora" de uma rua e ainda a geminação de Azinhaga com duas localidades espanholas.

O PS, ex-partido de Vítor da Guia, presidente da Junta de Freguesia de Azinhaga eleito pelo GIVA, alude à recente conversão deste ao saramaguismo, deduzindo-se que antes assim não era dessa "religião", podendo até pressupor-se da crítica que antes fosse contrário, já que o acusa de oportunismo político.

O próprio PS publicitou no seu sítio oficial uma foto do Sr. Presidente da Câmara "a dormir" (não estaria certamente, mas o feliz flash do repórter fotográfico de serviço apanhou um instantâneo com os olhos fechados), para procurar demonstrar com boa dose de ironia, a indiferença com que a Câmara Municipal (eleitos do PS) encara as manifestações promovidas pelo seu ex-homem de confiança.

José Saramago é uma figura incontornável, goste-se ou não dos seus escritos, partilhe-se ou não da sua ideologia, que jamais deixou de evidenciar pela sua (longa) vida fora. Eu sou dos que não aprecio e não comungo. Mas, ao mesmo tempo, sou dos que respeitam e reconhecem o prestígio nacional e internacional do prémio nobel da literatura, o que por si só lhe confere um status assinalável, pelo mérito pessoal e não por outra razão.

A CM, que promoveu já várias iniciativas no âmbito do reconhecimento público de algumas personalidades das nossas terras, nunca se mostrou "virada" para o fazer com José Saramago, exceptuando-se a atribuição do seu nome à biblioteca de Azinhaga. Não conheço dos motivos, mas pode concluir-se que alguém do executivo simplesmente não gosta de José Saramago e que por isso entende que não lhe deve reconhecer o mérito, premiando-o de outra forma, mais afirmativa.

E neste «não gosto não reconheço» e «não gosto mas reconheço», parece-me que Vítor da Guia tirou mais partido do que a CM e o seu Presidente, pela simples razão que Vítor da Guia, independentemente das suas motivações, que não deixam naturalmente de procurar promover a sua imagem política e capitalizar mais uns votos para as próximas autárquicas, pode sempre alegar que as suas opiniões pessoais foram relegadas para segundo plano, em prol da justeza do reconhecimento do talvez mais prestigiado e reconhecido filho da terra, apesar de lá ter saído gaiato, para só muitas décadas depois lá voltar. Outros irão argumentar que, para promoção pessoal já vale tudo, incluindo promover alguém de quem não se gosta para tirar daí vantagens políticas.

Sabendo-se a reconhecida habilidade da CM no aproveitamento de coisas deste género, surpreende-me que tenha dado de bandeja ao seu agora adversário a oportunidade de "brilhar", concretamente à luz dos olhos dos Azinhaguenses, conseguindo um palco com elevada visibilidade na sua freguesia.

Na política, infelizmente, estes acontecimentos tendem a ser, talvez pela sua visibilidade, extrapolados em detrimento de outros, bem mais importantes, que se prendem com a acção e a inacção e com os fundamentos estratégicos onde os eleitos sustentam os seus modelos de desenvolvimento para as suas terras. E, talvez motivados por essa visibilidade, não se têm coibido os políticos de cá, de aproveitarem sessões solenes, como esta e como a das comemorações do 25 de Abril, para deixarem as suas "bicadas" uns aos outros, políticas pois claro, quando os momentos aconselhariam uma postura bem mais institucional, onde discursos de circunstância fariam mais sentido e ajudariam, estou certo, a tornarem mais agradável e mais saudável o clima de confrontação, que se deseja e é salutar, mas de forma mais elevada.

Só que as querelas pessoais não têm deixado margem para o bom senso, sendo que quase todos não têm resistido a "entrar na onda".

É a pré-campanha em fase de aquecimento.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

AINDA OS ESGOTOS

Na ordem do dia, está o diferendo entre a maioria do executivo da Câmara Municipal (eleitos pelo PS) e o munícipe Lúcio Oliveira, residente em Azinhaga, diferendo esse tornado público pelos órgãos de comunicação social regionais e locais.

Naturalmente que nas motivações de cada uma das partes jamais me imiscuirei e, com sinceridade, não me preocupam muito. Aquilo que lamento é que se podia ter em cima da mesa uma discussão pertinente e temos uma questão de ajuste de contas político e pessoal.

Porque pertinente é a questão das eventuais e alegadas ligações incorrectas de esgotos públicos a pluviais, e vice-versa. A ser verdade que existem ligações de esgotos domésticos aos colectores de pluviais (eu deduzo que sim, em especial por algumas manifestações de mau cheiro, concretamente no Verão, que emanam dos sumidouros), estamos perante um caso de saúde pública e de práticas ilícitas nessas ligações.

O PSD levantou essa questão na campanha eleitoral autárquica e ela volta agora, por outras vias, à agenda política local.

Eu sou dos que acreditam que os órgãos do estado (no caso a CM) não podem ser permanentemente culpados por todas as asneiras que cada um de nós munícipes resolvamos ir fazendo. Acredito, numa comunidade que se quer evoluída, na responsabilidade individual e nos actos de cidadania positiva e por isso entendo que os primeiros culpados são aqueles que, de forma irresponsável fazem essas supostas ligações. Irresponsável, porque acarretam prejuízos tremendos de ordem ambiental e de saúde pública, já que fazem com que se enviem para o meio ambiente, águas residuais domésticas que carecem de tratamento prévio nas respectivas ETAR's.

Porém e em termos de responsabilidade, acho que ela não acaba aqui. Conscientes deste problema, (o próprio Sr. Presidente da CM assumiu conhecê-lo) os nossos governantes locais não promoveram mecanismos de prevenção e fiscalização eficazes contra esta questão, tendo como resultado prático, não só a não resolução dos problemas existentes, como eventual e provavelmente a proliferação de mais alguns. É desejável, que a CM enquanto organismo regulador e fiscalizador, tenha a capacidade de forma mais afirmativa de fazer face, através de mecanismos de regulamentação e meios de fiscalização, a um problema que afinal toda a gente parece conhecer.

Mas o inverso também pode acontecer, ou seja, a ligação de águas pluviais ou outras que não careçam de tratamento em ETAR's estarem ligadas aos colectores públicos de esgotos domésticos, induzindo naquelas uma sobrecarga desnecessária. Basta perceber que algumas ruas não dispõem de colector público de águas pluviais, não permitindo, mesmo que se tente e queira, fazer as devidas ligações, de forma correcta.

É por isso desejável que, à margem das polémicas que acima refiro, se aproveite a oportunidade para procurar minimizar os efeitos das más ligações de esgotos e acima de tudo, criar de forma sistémica acções eficazes de controle e fiscalização, tendencialmente mais inflexíveis e mais eficientes.

Porque é isso que realmente importa.

ELEIÇÕES NO PSD - Resultados Nacionais, Distritais e Locais

Resultados das eleições directas para Presidente da Comissão Política Nacional do PSD, realizadas em 31 de Maio de 2008:
RESULTADOS NACIONAIS:
Manuela Ferreira Leite : 37,86%
Pedro Passos Coelho: 31,55%
Pedro Santana Lopes: 29,13%
Mário Patinha Antão: 0,68%

Votantes: 59,84%

DISTRITO DE SANTARÉM:
Manuela Ferreira Leite : 39,85%
Pedro Passos Coelho: 38,58%
Pedro Santana Lopes: 20,42%
Mário Patinha Antão: 0,52%

Votantes: 59,07%

SECÇÃO DA GOLEGÃ:
Manuela Ferreira Leite : 42,86%
Pedro Santana Lopes: 39,29%
Pedro Passos Coelho: 14,29%
Mário Patinha Antão: 3,57%

Votantes: 77,78%
Realce ainda para a excelente adesão às urnas na secção da Golegã, uma dais maiores do Distrito, apenas suplantada por Alpiarça (89.29%), Ferreira do Zêzere (82.00%) e Sardoal (88.24%).

CANDIDATURA DE PASSOS COELHO NA GOLEGÃ

Publiquei aqui um artigo intitulado "mandatário esquece-se das quotas", acerca da estranheza que me provocou o facto do mandatário concelhío da candidatura de Pedro Passos Coelho ser um nóvel militante do PSD de cá.

Foi de forma natural e espontânea que manifestei a minha estranheza, não obviamente pela pessoa escolhida, mas acima de tudo por ser um militante que não conhecia. Por uma razão simples: porque entendo natural que uma candidatura, numa eleição interna de um partido, procure promover um mandatário que consiga reunir o máximo apoio em torno dela, procurando também a legítima aspiração de conquistar os votos necessários para o cumprimento dos seus objectivos. Nesse sentido, é normal que as candidaturas escolham militantes, que por razões históricas ou outras, possam assegurar com maior eficácia essa tarefa. Também será supostamente desejável que a escolha recaia num militante com capacidade eleitoral activa, sendo sempre mais um voto garantido.

E, pelo exposto, confessei a minha surpresa por a candidatura do Pedro Passos Coelho ter optado por um militante recente (e que por isso não pode exercer o seu direito de voto, dado a sua inscrição ter sido concretizada à menos de 6 meses), que teria à partida dificuldades de mobilização, quando me parecia que na nossa secção, se poderíam ter conseguido mais apoios a esse candidato. Foi apenas isto que senti. Nada mais. Nada menos.

Repare-se que nunca afirmei que assim não devia ser nem tão pouco, que assim não podia ser. Afirmo apenas que tem sido normal que assim seja.

Jamais pretendi com isto deixar implícito qualquer juízo de valor sobre a pessoa em quem racaíu essa escolha. Até porque como afirmei, à data não o conhecia e tenho por hábito todos respeitar.

Sabendo que é um novo militante, só posso ficar alegre pelo facto de ver que o PSD continua a ter a capacidade de atrair mais gente para as suas fileiras.

MANUEL ALEGRE CONTESTA GOVERNO

O comício em que participou ontem Manuel Alegre, conhecido deputado do Partido Socialista (PS), motivou já reacções do seu porta voz, Vitalino Canas, considerando esse evento como «uma realização crítica ao PS e ao Governo, sem propostas alternativas para combater a pobreza e a desigualdade». Vitalino Canas referiu ainda que esta manifestação demonstrou que «não há nenhuma alternativa à esquerda [sobre as questões da pobreza e desigualdade], àquilo que o PS tem estado a fazer no Governo».

Recorde-se que o deputado Manuel Alegre criticou ontem a política económica do Governo PS por não ter resolvido o défice social e aconselhou "humildade" para solucionar os problemas do País, aproveitando a oportunidade para, perante uma sala cheia, fazer a pergunta de que tinha valido às pessoas o facto de as contas públicas estarem consolidadas, como reclama o Governo de José Sócrates, mas em contraponto notarem-se agravamentos das questões sociais. ~

Manuel Alegre, sem dúvidas um dos discursos mais aguardados da noite, explicou que o comício mais não foi do que um "acto cultural com contornos políticos" e que o que uniu todos os presentes foi "a preocupação, inquietação e solidariedade para com todos os portugueses que passam momentos difíceis porque votaram nos socialistas". Foi talvez esta a forma encontrada pelo ex-candidato à Presidência da República, para responder aos seus colegas de partido, nomeadamente Vitalino Canas e António Vitorino, que o haviam criticado por participar numa manifestação alegadamente organizada sub o cunho do Bloco de Esquerda.

«Nunca precisei de pedir licença a ninguém para estar onde estou. E, hoje, apetece-me estar aqui!», encerrou desta forma o seu discurso.

terça-feira, 3 de junho de 2008

POLÍTICA SOCIAL NO CENTRO DO DEBATE

O recente artigo de Mário Soares, fundador do PS, sobre a desigualdade social, a pobreza e a intervenção do estado, parece ter incomodado as estruturas do partido. É com alguma naturalidade que assistimos a esse incómodo, uma vez que o escrito do ex-Presidente da República, coloca a nu a política social do Governo e, acima de tudo, de José Sócrates.

Longe vão os tempos da máxima "há vida para além do défice", criada e propagandeada pelos socialistas de então, que são os mesmos de hoje, mas tendencialmente menos socialistas.

Considero indiscutível o acentuar nos últimos anos das desigualdades sociais e do crescimento da pobreza. Contudo e se quisermos ser sérios, esta degradação social não tem apenas um pai, como não tem apenas uma mãe. Não podemos assacar responsabilidades exclusivas a nenhum partido pelo crescimento exponencial deste flagelo. Estamos por isso seguramente todos a ficar um pouco fartos de ouvir e ler o nosso primeiro-ministro imputar ao PSD a origem de todas a maleitas sociais, como se nos últimos 12 anos de governação em Portugal, os nove anos entregues ao PS se desvaneçam, nesta matéria, como que por golpe de mágica.

A verdade é que Portugal raramente teve uma verdadeira política devidamente consolidada visando o progresso social. Desde o final da década de 80 em que as privatizações e uma sensível liberalização da economia procuraram corrigir as sequelas fruto da estatização proveniente do 25 de Abril, não com os melhores resultados. Essas privatizações e essa nova "abertura" da economia, permitiram a reconstrução de alguns grupos económicos entretanto desmantelados aquando da revolução, bem como o aparecimento de um capitalismo novo, ainda que na sua fase embrionária e expectante. A década de 90 foi dominada pela atribuição (algumas vezes má) e pelo aproveitamento (muitas vezes mau) dos subsídios do Fundo Social Europeu.

Mas se a liberalização económica, absolutamente necessária à época e inevitável hoje, nesta esfera globalizante, permitiu até determinado momento o enriquecimento global da sociedade portuguesa, não contribuiu de todo para a planificação de um modelo sustentado de desenvolvimento social, pese embora seja de assinalar a importância do espírito reformista, nessa matérias, dos governos de Cavaco Silva, o mais genuíno primeiro-ministro social-democrata de que tenho memória.

A verdade é que a maioria das escolas privadas continuou a ser globalmente melhor que as escolas públicas, os serviços de saúde privados, em crescendo, continuam na maioria dos casos a mostrarem-se mais eficazes e mais rápidos que os serviços públicos. A par disto, a educação, vector essencial de desenvolvimento, foi sendo demasiadas vezes alvo de alteração de estratégias reformistas, tantas e tantas vezes em sentidos diametralmente opostos.

Como consequência, o País foi crescendo "coxo" e foi deixando que a riqueza fosse cada vez mais rica, agravando as desigualdades sociais, hoje estendidas a uma classe média depauperada.

Tem razão Mário Soares no seu "aviso à navegação". Como parece ter razão ao afirmar que o idealismo, mais tarde ou mais cedo, irá voltar ao centro do debate político, dada a comprovada ineficácia das sociedades neo-liberais.

Manuela Ferreira Leite já deu um passo relevante, ao trazer para a discussão um tema tão "forte" quão pertinente. Mas mais importante é que esse tónico não caíu em saco roto.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

GANHOU O PSD E GANHOU O PAÍS

Ao contrário de algumas opiniões, nomeadamente do ex-líder do PSD, Luís Filipe Menezes, acho que Manuela Ferreira Leite chega à liderança do PSD com absoluta e incontestável legitimidade.

Conquistou a liderança do maior partido da oposição depois de vencer nas urnas (nas tão, por ele, apregoadas directas) dois adversários que, dadas as circunstâncias, reuniram apoios bem relevantes. Ganhou um jogo com as regras definidas à partida. Discutir as regras, são contas de um outro rosário.

Em democracia, ganha-se e perde-se por um voto ou por mil votos. Ferreira Leite ganhou. Ponto final parágrafo. A teorização de alguns, de que em directas um candidato com as características de Ferreira Leite jamais conseguiria vencer caiu por terra, tendo o partido dado uma resposta impressionante, quer na adesão, quer na demonstração da sua matriz interclassista, em que «barões» e «bases» não existem por si, mas apenas constituem, juntos, o todo.

Manuela Ferreira Leite é dos políticos mais habilitados para ter um confronto na discussão sobre modelo económico e social com o primeiro-ministro, estando agora reunidas condições para uma discussão séria, com clivagens substantivas e de cariz ideológico sobre as estratégias de desenvolvimento sustentado do País, em detrimento dos conflitos superficiais, demagógicos e populistas.

Quanto à unificação do Partido, espero e desejo que o candidato Pedro Passos Coelho e a sua task-force se coloquem à disposição da nova liderança, no sentido de contribuírem para o apaziguar de uma etapa conflituosa, que oxalá tenha terminado com este processo eleitoral. Pedro Passos Coelho aliás, num discurso sereno e humilde, já abriu essa porta.

Quanto a Pedro Santana Lopes (e os seus mais fiés seguidores), sabe-se que não estará disponível para colaborar, como se sabe que entrará num período de reflexão profunda, sabendo-se ainda, como sempre se soube, que irá andar por aí.

GOVERNO REVÊ EM BAIXA CRESCIMENTO ECONÓMICO

Verificaram-se, de acordo com notícias publicadas à poucos dias, cortes no consumo de vestuário e calçado por parte de importante fatia das famílias portuguesas, para poderem comprar alimentos.

O corte no consumo das famílias, a quebra na construção e um abaixamento do desempenho das exportações explicam porque o País ficou 0,2% mais pobre nos primeiros três meses do ano, em relação ao último trimestre do ano passado, e cresceu apenas 0,9% quando comparado com primeiro trimestre de 2007.

Foram também estas as razões que levaram o Governo a rever em baixa, de 2,2% para 1,5%, as estimativas de crescimento económico para este ano.

O INE confirmou que o abrandamento estará relacionado com o menor dinamismo do consumo e com uma significativa travagem do investimento.

Nos gastos das famílias, destaque para o aumento das compras de bens alimentares em detrimento da aquisição de vestuário e calçado, combustíveis e electricidade.

A deterioração no investimento é explicada pelo INE pelo mau desempenho na construção, sendo que um indicador forte, como a compra de cimento, decaiu nesse período.

À apenas umas semanas atrás parecia, fazendo fé no discurso do Governo, que vivíamos numa realidade diferente (que culminou com a redução da taxa do IVA em 1%), sendo que agora se continuam a vislumbrar tempos de dificuldade e austeridade.